2.4.17

Passaporte

Passando de boca em boca,
Cadê a força da sua geração?
Eu preciso de passaporte para entrar
Com minha poesia na sua nação?
E se derramar todo o empenho,
Dentro de uma farsa tão ingênua,
Apontando meu telescópio,
Para onde só tem escuridão?
A distância aumenta, o brilho se perde,
Poesia se mede?
Onde está o olho que pode ver tudo?
Está acima do meu dente podre e cariado?
Acima do sangue de dentro da minha boca viva,
Boca que fede, boca de grita, boca latina,
De um homem que quase vestiu a batina,
Cheio de porcarias e sem um pedaço do intestino?
Passaporte, este livro não tem um destino?
Poesia se mede fragmentada...
Fragmentos de tudo e também de nada...
Derramando água em um chuveiro importado,
De outra nação, de outro governo, de outro lado,
Um futuro que deixa o cosmos mais distante,
Cadê a Terra com seu presente estonteante?
Na mão do dono do muro, muro que fecha e não abre,
Sorriso que vai e não volta, sou um imigrante!
Meu poema imigrou para esta página,
Saiu da zona entre a incompreensão e o gênese.
Por que eu sei citar a bíblia, eu sei rezar de joelhos,
Eu sei pagar minha dívida, sei dar conselhos,
Não sou nada fragmentado,
Sou tudo bem ao contrário, um exagero,
De tamanho, de arrogância e de desespero.
Não mexam com os meus filhos!
Os filhos de um mesmo brasão!
Sem passaporte e sem fronteira,
Fruto de uma inspiração!
Cadê toda a papelada para conseguir publicar?
Eu preciso persuadir? A quem eu tenho que agradar?
E se andar tanto tempo nas sombras,
Com os olhos fechados, não querendo enxergar,
A catástrofe que separa todos os sistemas do meu corpo?
Dentro da epigênese dos leitores digitais,
Eu nasci tendo a internet como meus pais...
Não consigo estocar O2 dentro da cartilagem do meu nariz,
E eu coloco meu nariz onde nunca foi chamado,
Quem sabe agora estou fragmentado,
Dispondo o meu volume sobre a luz visível.
Cansei de ser o homem com senso de invisibilidade,
Por que meu corpo é sólido,
Minha poesia é incorporada,
Esta página é minha morada?
Eu preciso de passaporte?
Poesia é passaporte,
Poesia não é muro!
Poesia é visto de entrada,
Poesia é ponte!
E eu sou fragmentado,
Como o código das sociedades secretas.
Quem vai passar a roupa?
Cortar a grama do jardim?
O México é um lugar descente!
Quem vai cuidar do seu filho?
Quem vai estar na história do seu país?
Latino americano também é gente!
É poesia, é cultura, é personificação,
Apontando o meu telescópio entre tanta escuridão.
Poesia vestindo a minha gramática precária!
Beije minha boca e chupe minhas feridas,
Liberte de dentro de mim isso que me habita,
Por que a palavra em mim sofre, em mim ela grita!
Ela vem sobre meus dedos e não consigo entender,
Se isso é um passaporte, se alguém irá me prender!
Meu crime é ser aquilo que eu sou,
E aquilo que eu sou é tão pouco,
É gramática e poesia,
Latino americano em demasia,
Cadê a força da sua geração?
Querem desmanchar a imagem do meu país?
Querem pulverizar a terra amada que tudo dá?
Não mexam com os seus filhos!
Não mexam com os seus filhos!
Retrate em mim a sua fobia social,
Jogue sobre mim o seu veneno letal,
Faça as teclas baterem, os alarmes tocarem,
E todos os homens com homens se amarem,
Jogue em mim a sua intolerância,
Com minha avó sentada fazendo tricô,
Uma imigrante naturalizada brasileira,
Sem passaporte e sem fronteira,
Fruto de uma inspiração!
Cadê a força da sua geração?
Tire minhas roupas, dispa-me da cultura, da língua, da religião!
Apontando o meu telescópio entre tanta escuridão.
Despedace meu corpo em cinco partes,
Coloque ele sobre um pentagrama invertido,
Invoque Baphomet com seus truques e artes,
E me deixa chorar por ser mais um corrompido.
Por que a palavra em mim sofre, em mim ela grita!
Por que a palavra é forte, em mim ela é luta!
Fruto de uma maça tão pobre, tão maldita!
De uma inspiração que é minha fruta!
Da fruta, do fruto, do filho que eu já fui,
Imigrante, renegado, um filho que cresceu.
Pelado nos Estados Unidos da América,
Pelado tentando construir uma ponte.
Um carimbo no passaporte.
Passando de boca em boca,
Poesia se mede?
Poesia não é muro!
Eu acho que eu não estou seguro,
Meu poema imigrou para esta página,
Você também libera CO2?

By: Vinicius Osterer
Feito em 02 de Março de 2017.

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