5.3.17

Poesia de Segunda

Esperava sentado na sala de entrevistas do local, em plena segunda feira de manhã chuvosa. Estava em um banco de dois lugares que não prestava para nada, do meu lado tinha uma folha escrita: “não sente deste lado, banco quebrado”. O que facilitava meu isolamento para pensar no que responder, quando perguntado por que queria aquele maldito emprego. Precisava pagar minhas contas? Resposta sem fundamento. Todos precisam pagar as suas contas. Não sabia qual era meu interesse.
A pessoa responsável do RH era uma mulher de aparelho nos dentes, cabelos loiros e uniforme da empresa. Falava claro, alto, para não deixar perguntas vagas e dúvidas. Eu preenchi minha ficha e fiquei sentado por três horas, até perto do meio dia.
- Então, Vinicius não é mesmo?
- Isso!
- É a primeira vez que você faz entrevista conosco?
- Sim, é a minha primeira vez.
- Bom, vou precisar da sua carteira de trabalho, RG e CPF.
Entreguei meus documentos enquanto respondia as perguntas solicitadas. Minha altura, meu peso, se tinha problemas de saúde e tomava remédios. Queria dizer que tinha grave problemas psicológicos, que tentava ser escritor e sobreviver da escrita, mas fiquei receoso de ouvir coisas como: “é difícil sonhar de olhos abertos”. E era uma brincadeira da minha cabeça, tentando amenizar o nervosismo.
“Tomar remédios para me matar, será que contam?” – pensei em responder. Mas estava tudo bem com a minha depressão esporádica, então só fiz negativo com minha cabeça, negando a pergunta e meus próprios pensamentos.
- Você tem alguma experiência profissional? – ela pediu.
Então respondi:

Eu gosto de ser submisso ao seu conhecimento,
Não sei se é fachada, lhe querer é um advento
Que me encharca todas as partes do corpo.
Quando você fala é tão bom,
Seus óculos no rosto lhe transferem um tom,
De ser humano indomável como o fogo.
Seus assuntos e defesas são consideráveis,
Sua força e sinergia são tão agradáveis,
Você é vida dentro dos meus dias de escuridão.
Gosto do seu gosto Indie, o amor pela solidão,
Gosto da sua fiel e severa opinião,
Do seu espírito ativista por uma causa,
Causa de vida, causa de causa.
E se você é sociopata, se você é esportista,
Eu coloco você como o primeiro da lista,
Da lista de todos os meus amores,
Seu amor é visual e mental,
Me deixa fora do meu normal,
E eu acabo falando coisas desnecessárias,
Sobre o pôr do sol da minha casa,
Das vezes que chutei tijolos,
E tirei as pedras do meu caminho.
Você me disse que gosta de ser sozinho,
E eu posso ser sim o seu moço,
Posso lavar para você a louça do almoço,
Escrever sobre você em alguma poesia,
Fazer você sorrir quando liberta-se com sua arte,
Por que tudo isso também faz parte,
Da sua realidade de causa.
Isso é amor? Isso é interesse?
Talvez seja algo que não me apetece,
Apenas com uma palavra que tu disseste,
Eu já me senti tão submisso,
Não quero mais dar nenhum sumiço,
Quero ouvir com você e de você palavras,
Quero sorrir com você e de você na madrugada,
Sem a propriedade de possessão taurina, que é tratada,
Por que você é alguém sem limites e fronteiras.
E eu agora passei a falar.
É muito bom amar.
Isso conta como experiência no currículo?

- Tenho, mas nunca fui registrado – voltei dos meus pensamentos.
Ela estava preocupada com a chuva. Tinha ido trabalhar de moto e queria acabar logo aquelas entrevistas. Eu queria pagar minhas contas, e viver da minha escrita. O tempo não ajudou muito, ela se molhou na chuva.
- Eu nunca sonhei de olhos abertos! – disse para a recepcionista, quando deixava o local. Saí pela porta da frente, abrindo meu guarda-chuva xadrez. “É só esperar, é só esperar. Ou uma coisa ou outra.” - pensei, voltando para casa na chuva, de roupas secas e sorriso no rosto.

By: Vinicius Osterer
Feito em 13 de fevereiro de 2017.

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